
Bajo Juarez
A cidade devora suas filhas
“México eu creio em ti...”
Cancioneiro popular
no ônibus
jovens mulheres
vão para o trabalho
na "maquiladora"
Anúncio no rádio
Alejandra desapareceu
Deserto...
nome
filiação
data de desaparecimento
a foto
da festa de quinze anos
da primeira comunhão
do retrato para a profissional
no cartaz
elas sorriem
“México eu creio em ti...”
São 437
raptadas
violadas
mutiladas
A cruz é rosa
e nela
a mãe
o pai
a mãe
a mãe
a mãe
pinta o nome à mão
e
vai para a escola
e
ensina as crianças a escrever o nome no caderno
e
volta pra casa
e
dá banho nos netos
e
chora
a outra mãe
vai à prisão
visitar o filho condenado
que estava em outra cidade
na noite do crime
apenas um detalhe...
a mãe
fala
com a repórter
com a comissão que investiga os casos
com a polícia
com a câmera de cinema
que registra
a dor
a revolta
o descaso
ela fala
com o presidente
“México eu creio em ti”
falam também
o perito que
examinou o corpo
e não conseguiu
concluir muita coisa
as provas
bem...
“o tempo apaga as marcas”
as provas
prá que mesmo as provas?
a repórter que
quixotescamente
investiga a estrutura montada por empresários
financiadores
da campanha presidencial
eles
sequestram
violam
e matam
prá se divertir
...
a mãe fala
comigo
na poltrona do cinema
impotente
com um nó na garganta
aquela mãe
podia ser minha vizinha
aquele moço
podia ser meu amigo
aquela filha
podia ser eu
podia ser minha irmã
podia ser minha namorada
porque a gente é mulher
simples assim...

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